Sexta-feira, 1 de Junho de 2012

Mês seis, para partir

Há muitas razões para gostarmos de Junho. Seguindo, um concerto do Boss com a E Street Band para abrir as hostilidades, e assim, oito anos depois, voltamos à Bela Vista para comer pó e berrar pela América. Em seguida, porque não é na América que se está (e há prioridades, prioridades), o início de mais um campeonato Europeu de futebol, desta feita sem exames pelo meio, podendo seguir de forma fanática o desenrolar de mais uma competição de alto nível. Carrega Portugal! Depois, a edição física do novo disco dos Quais, já que fazer (mais) publicidade não magoa. E como não magoa, mais um anúncio à navegação: o regresso do Deserto Branco aos palcos, na sua saída anual, com uma primeira parte de luxo a cargo do Lucas Bora-Bora e companhia ilimitada, já no próximo dia 21. Para o fim, eleições na Grécia, e uma cimeira Europeia, ou mais um capítulo no nosso tudo-ou-nada, político, social, existencial, devidamente preparado por uma séries de aulas intensivas sobre a integração e o futuro, onde quer que ele vá. Durante o mês também há John Ford na cinemateca (mais um sinal da América que se aproxima). Chegou o sol para ficar de vez. Siga.


Quinta-feira, 31 de Maio de 2012

Cinco canções para acabar Maio

Número um (o valor está na selecção total e não na ordem individual), Doughnut for a Snowman dos Guided by Voices, lenga-lenga bem lançada em acordes fáceis e psicadelismo lírico, típico do quinteto americano. Os Guided by Voices têm essa coisa óptima de serem bons para a condução ou caminhada de longo curso. Para o número dois, Monossilábica dos Quais, ou o regresso do wha-wha em modo tropical casando com um violão em harmonia forte, nada de "gris" no "céu tão sem luar", só calor balançado para este terrível hábito primaveril que é ter quintas-feiras mais quentes que os fins-de-semana. No número três rodam o Boss e a E Street band com Cover Me. Preparação para Domingo, dia de Springsteen, América. Número quatro, nas Américas de Lisboa, mais concretamente na linha amarela do metropolitano, Adormecer do Éme. Uma viola à Currituck Co. e uma ode divertida sobre preguiças e afins (a preguiça de manhã é uma descoberta bastante recente, acreditem ou não). E no número cinco, para acabar, This One's Different dos Howler. Os Howler, já disse, são uns miúdos que não tiram o Is This It da aparelhagem, e lançam-se para a frente com isso. Não salva o mundo mas enche o mês, com uma rifalhada valente. Nada melhor para carros de janelas abertas se fazerem à estrada neste Verão de austeridade e luta europeia.

Quarta-feira, 30 de Maio de 2012

Sobre concertos de liceu e mulheres que dizem sim

Tive uma banda aos dezassete anos que conseguiu o maior feito possível para qualquer primeira banda que se preze: tocar na festa do colégio. A coisa até nem correu muito mal para uma banda que começava e que tapava falhanços de tempos e notas com a pica toda que tinha, e lá houve show (não vou revelar alinhamentos para evitar embaraços: lembrem-se, tínhamos dezassete anos). Mas lembro-me sempre de como desafinei à grande, com a minha humilde voz de panque-roquer lisboeta, esta canção-bomba cheia de pica e humor. Só conhecia a versão simples, de violão e voz (mas não menos grande, não menos forte) de Moreno Veloso. Apanhei com o original a partir desta entrevista a Pedro Sá. Suingue, forte, para sambar. Há uns anos, com um baixo tocado com palheta a dar os acordes e a bateria a partir sobre uma guitarra distorcida e um pouco de falta de jeito, tinha tudo para ser a versão ideal, para partir. Carrega Brasil.

Terça-feira, 29 de Maio de 2012

Segunda-feira, 28 de Maio de 2012

Tudo tão literal

A melhor maneira de ultrapassar um fim-de-semana tramado por constipações e jogos amigáveis de preparação para o Euro que só dão sono e sono (alguém um dia ainda me vai explicar como é que se consegue ficar constipado em Maio com vinte e quatro graus lá fora) é avisar o mundo que já está aqui, finalmente e após anos de espera e mais espera, pronto e fresquinho para entreter e embalar, à Benfica e à Brasil, o novo disco dos Quais, Pop é o Contrário de Pop. Sejamos personagens de nós mesmos, com este ritmo de bandeira para mandar os males embora.


Sexta-feira, 25 de Maio de 2012

Sobre a reunião de quarta-feira

A maior parte dos periódicos internacionais discutiu a "cimeira" de quarta-feira como mais um falhanço de liderança, marcado pelas divisões entre Merkel e Hollande (o novo combate de boxe Europeu para os media — numa gralha com graça, o El País chamou "Sarkozy" a Merkel numa legenda). Que a austeridade "tout court" vai mudar parece um facto, mas é preciso ver que da reunião — e não cimeira — retiraram-se lições importantes. Em primeiro lugar, a UE institucional chegou-se à frente (finalmente!) para propor um plano que permitirá criar uma maior integração bancária a nível de garantia de depósitos. E segundo lugar, caiu o tabu dos eurobonds, nem que seja como discussão para o longo prazo. A melhor saída de todos para o embrulho em que estamos era a assinatura dum tratado, mas já sabemos que isso não vai acontecer tão cedo. Mas passarmos duma discussão de "pacto fiscal" para um discurso de "construção para chegar a" (neste caso eurobonds, união fiscal, e integração) é um passo importante. Em Junho, com as novas eleições gregas e (aí sim) cimeira com a apresentação de propostas concretas para a governação bancária e papel do BCE e do Banco Europeu de Investimento vamos ter novos e importantes desenvolvimentos (tem uma certa graça pensar nisso e saber que Junho será o mês do Europeu de Futebol: qual será a vontade europeia que ganhará por fim?). Mas pode ser que o vinte e três de Maio de 2012 fique mais lembrado que o mês seguinte, por se ver finalmente uma direcção, ainda que ténue, mas mais decidida, a avançar. Portanto, é esperar, e não cair na vontade de "sangue" dos media. A Europa ainda tem muito a dar, juventude.

Quinta-feira, 24 de Maio de 2012

O céu é um lugar para se guardar

É verdade que os Talking Heads cantavam "Heaven is a place / a place where nothing / nothing ever happens", mas há mais (muito mais) na noção de céu que o niilismo irónico e popado de Byrne e companhia anunciava. É o que podemos tirar do novo álbum dos Walkmen, Heaven, em repetição permanente (graças à NPR) aqui em casa. Os discos dos Walkmen são celebrações contidas, controladas e marcantes. Os instrumentais raramente explodem, deixando a letra e a voz (a melhor voz) de Hamilton Leithauser soar mas mantendo o centro da canção lá atrás, bem amanhado e construído para nos chamar para si. Poderíamos chamar-lhe um roque éne role "maduro", por contraste à explosão juvenil que outros seus conterrâneos seguem, mas isso era exagerar: são, no fundo, artistas clássicos, preocupados com o equilíbrio da canção, com a sua génese e estrutura criando músicas para serem festejadas por dentro, mesmo que isso seja uma coisa difícil hoje em dia, em que é tudo para o primeiro acorde e kawabanga até ao fim. Heaven é um disco grande (treze canções para uma banda roque é arriscado) mas cheio como tudo, bem alinhado e com uma força incrível. Tiradas fortes, letras e refrões para bater, com aquela bateria que ameaça ameaça mas nunca cai no erro de destruir, e aquelas guitarras de som bem limpo a cortar o espaço. É o álbum do quinteto nova-iorquino que mais me apanhou, e logo de imediato. Vou perdê-los no Primavera (neste ano de poupanças quem ganhou foi o "Boss") mas é um disco que vai ficar pelo ano adentro, para todos os bailes e mais alguns.


Quarta-feira, 23 de Maio de 2012

Sobre políticas culturais, mais uma vez

Escrevi recentemente, a convite do Católica Finance Club, para a edição de Maio da Coeteris Paribus, aproveitando a deixa para me dedicar à discussão recente no apoio às artes e à tomada de posição "apolítica" perante a cultura que este Governo tanto gosta de apresentar (não é inocente, vem no seguimento disto). Depois de o escrever descobri esta frase de John M. Keynes num texto de Brian Barry, a propósito duma conferência dada na Irlanda nos anos trinta: "A country which cannot afford art or agriculture, invention or tradition, is a country in which one cannot afford to live". Vem mesmo a propósito: em espírito, o artigo está todo ali. Para ler, aqui.


Terça-feira, 22 de Maio de 2012

Hey hey, my my

Ando a ouvir o último dos Chromatics, Kill For Love, há algum tempo. Night Drive, o disco anterior, foi dos primeiros registos de pop electrónica que me lembro de gostar, mas curiosamente fiquei com interesse na banda depois dum concerto em Benicassin em que abriram com o I'm On Fire do Springsteen, numa versão muito despida mas embalada. Aqui entram com Neil Young, antes de meterem as batidas e os sintetizadores a partir a loiça, como se quisessem marcar uma ideia de estilo. Não digo que as guitarras não tenham um peso por cá e que não haja uma ideia evocativa de algum espírito roque éne roleiro. Mas o que fica são os teclados, as melodias electrificadas e polifónicas que lhe dão (como davam em Night Drive) um sentimento narrativo, quase cinematográfico. Não é um disco que prenda por aí além, mas fica no ouvido, e dá um bom ritmo às noites que passam, agora que o calor já está para vir, mais e mais, outra vez.


Segunda-feira, 21 de Maio de 2012

A propósito dum fim-de-semana

(O que os nossos olhos apanham não é fácil de reter. Não consigo fotografar porque me parece pouco apanhar uma cara, um dedo, uma figura que seja, numa definição tão curta. Mesmo em filme, com o tempo corrido, se sente essa quebra: onde está o antes, onde está o depois? Há quem consiga apanhar bons momentos, por uma série de razões, mas não é o meu caso. Isto a propósito dum fim-de-semana.) Fui parar a uma encosta junto a um lago, caminhos de terra pejados de pedras e árvores, a chuva sempre ali a ameaçar, até chegar à casa. É uma casa no lago, no fundo duma descida íngreme, e está completamente isolada do resto das casas da zona. Não há luz nem ecrãs, mas há um pequeno porto junto à água donde se pode saltar. O tempo fresco, a brisa chata, a pele magra à mercê dos elementos, no fundo dum vale, minúscula perante o desenrolar do lago, das encostas e das árvores. E depois o primeiro mergulho, arrancado a ferros, com preparação excessiva, mas ao mesmo tempo decidido e em cheio. Quando se emerge está-se um passo abaixo, uma cabeça no meio da imensidão verde-azulada, o corpo fresco mas mais quente que no exterior onde a brisa já corta, já assusta. Foi o meu primeiro banho de lago/rio/mar deste ano, não sou como certas pessoas que tiram daí o início dos seus dias. Mas percebo o porquê de precisar duma tosga de água em cima para re-calibrar o nosso vigor com o mundo. De noite os ingleses ganhavam aos alemães — um infortúnio para o meu bavarismo interior — enquanto da varanda o que se via era o escuro de tudo aquilo que nos tinha engolido há pouco, sonorizado com as pingas que iam caindo em diferentes ritmos e cargas. (O que os nossos olhos procuram não é fácil de perceber. Talvez o melhor seja isso, conseguir perante uma imagem apanhar aquilo que interessa, ali, para trás e para a frente. Coisa nada simples, mas por vezes — por vezes — directa e imediata. Mas isto a propósito dum fim-de-semana.)



Sexta-feira, 18 de Maio de 2012

Quinta-feira, 17 de Maio de 2012

Parliamo de cine ou Italians Do It Better, número dois

(Na continuação do dia de ontem, Stefan Kornelius põe o dedo na ferida a apela ao debate (os alemães sabem muito sobre Europa, diga-se o que se disser. Mas agora, voltemos ao cinema.) Nanni Moretti é o presidente do júri da actual edição do festival de Cannes, um prémio merecido para um autor singular que não tem medo de usar o humor e o absurdo para nos obrigar a fazer as perguntas certas. Já me faltam poucos filmes para completar a sua filmografia (ao pé de Allen e de Antonioni está Moretti, nos topes interiores aqui do quarto). Vi Ecce Bombo noutro dia, sátira a um estilo de vida pós-moderno, exagerado e perdido. Moretti vai aperfeiçoar esta onda até chegar a Palombella Rossa, mas é bom ver onde o caminho começa, e apanhar com aquele Michele, o tipo mais odiável e egocêntrico e frágil à face da terra, na sua versão bruta. De soltar gargalhadas, gar-ga-lha-das, meus caros.

Quarta-feira, 16 de Maio de 2012

Euro-grupo

Os americanos (e os ingleses, que nesta altura têm muito claro qual é o seu lado da barricada) já anunciam o fim, o adeus, au-revoir disto tudo. Um grande amigo meu, romeno, também goza com o fim de toda esta história, e acha que é melhor a Grécia saltar do barco antes que este afunde. Mas os italianos (continua a semana italiana por este rio) dizem-no, se bem que adiciono mais algumas para que se perceba e bem: sair ainda é mais custoso do que ficar, pelo menos no curto prazo. Claro que as lógicas utilitaristas de mercados, números e eficiências que os Americanos deram ao mundo têm muito a dizer, mas não podem, hoje mais do que nunca, ser a única via. É preciso pensar para além do horizonte numérico para entender isto (e a resposta do João Salaviza ao João Pereira Coutinho, apesar de ser noutra discussão, é um exemplo perfeito disto): há uma construção que nos ultrapassa, com imperfeições, claro, mas que nos salvou durante muito tempo (e ainda vai salvar por mais) e de repente, como se nada do que se tivesse conseguido antes valesse, mandamos tudo ao ar. Os debate sem questão não são mais do que o fetiche dos pós-modernos (que sentem o tapete a fugir a cada segundo) gostam: o da notícia-choque, do anúncio-efémero, da página de jornal que manda recados e mais recados. Em suma: do populismo e da simplicidade mental sem qualquer género de construção. É preciso pensar para além do momento (e para antes deste também, já agora) para se conseguir perceber o que se pode fazer. Por isso é que não condeno tão rapidamente o encontro entre Merkel e Hollande (a coisa podia ter ido muito pior), já que ouvirmos os dois juntos a falar ainda abre um sinal. Está bem, mas não é palavras que se quer, e mesmo que seja o necessário são declarações fortes, expressivas, que mostrem uma ideia e um projecto, e não poeira para os olhos. Existe um projecto na mesa, e é alemão, começa por "a" também, mas é demasiado radical. Já disse antes: não comecem a jogar o mesmo jogo, que é o que parece que se faz agora que a palavra de ordem é "crescimento" e não "austeridade", puxando tudo numa direcção sem se pensar nas consequências devidas (algumas ideias aqui). Olhem para as coisas, para o que se passa. Na Grécia a maioria quer a Europa e a maioria quer o euro, e a divisão é entre as consequências necessárias para o manter. E aqui a Europa tem de se entender, não há uma solução por detrás. O que os governantes deviam estar a fazer é explicar e defender perante as suas populações o que está verdadeiramente em jogo: não a manutenção dum corolário "neo-liberal" mercantilista de mercados que a era Reagan tão bem propagandeou mas sim a construção duma ideia original, orgânica, fiel à sua história de Europa, ponto de partida e ponto de chegada do debate que cobre o globo, e do qual depende a salvação das sociedades. Não é glória, dinheiro, ou estatuto: são as pessoas, meus grandessíssimos políticos. São os povos, as pessoas, a diferença, e não o unilateralismo, a morte do debate, a via única do limite-orçamental da constituição. E é verdade que o cenário é muito complicado e há tanta coisa em jogo, como qualquer livro do Don DeLillo nos mostra (comecei a ler Cosmópolis e é exactamente isso, exactamente isso) e por isso lidar com tantas encruzilhadas não é coisa fácil. Como dizia a uma amiga ontem, sobre outro assunto mais mundano, há coisas que nos escapam (desde já, a existência) e que não controlamos, mas naquilo em que podemos ter uma palavra e podemos influenciar devemos fazer o melhor. O melhor não foi feito porque mais ninguém quer e a Europa, instituições, não está a querer assumir esse papel, deixando-o aos Estados por si sós (culpas para Barroso, Von Rompuy e companhia). Portanto é esperar que deste diálogo ao qual Hollande se juntou possam vir medidas e soluções que tenham um sujeito e não um objecto, um conteúdo e não um conceito. E pode parecer que me contradigo quando afirmo que o tempo é curto (o quê, queres soluções para anos feitas em dias?) mas quando o problema é grande o trabalho a fazer é ainda maior e é preciso pôr tudo o que se tem nisso. Até essa co-operação acontecer, vamos estar sentados à olhar para os mercados, a ver o que acontece com a Espanha. Podemos até estar melhor dentro das estatísticas, mas essas muitas vezes não estão lá fora, na rua. S. Francisco di-lo bem em Passarinhos e Passarões de Pasolini, é preciso insistir, com cabeça, nesse sentido. Até Junho, com as próximas eleições gregas, tem de ser para dar o litro.